Origens e História do Hapkido no Brasil
Publicado em: 2026-03-07 por Alfredo Carvalho Jr.
O Hapkido é uma arte marcial coreana de autodefesa fundamentada na tríade filosófica Hwa (Harmonia), Won (Círculo) e Yu (Fluidez). Embora sua estrutura técnica moderna tenha sido consolidada em meados do século XX por Choi Yong-sool — a partir da adaptação do milenar Daito-ryu Aiki-jujutsu —, sua identidade é profundamente enraizada na cultura coreana. Os princípios de não resistência e adaptação constante, comparados à natureza da água, refletem uma busca histórica pelo equilíbrio entre a eficiência técnica e o refinamento espiritual.
A linhagem ética da arte remonta ao antigo Reino de Silla, inspirando-se nos guerreiros Hwarang e em suas antecessoras, as Wonhwa, ambos grupos formalizados pelo Rei Jinheung (540–576 d.C.) para fortalecer a base moral e militar do estado. Esses grupos de elite estabeleceram o ideal do "guerreiro-estudioso", que combinava o treinamento marcial rigoroso com a virtude e a sensibilidade. Ao integrar essa herança ancestral aos conceitos de circularidade e harmonia, o Hapkido moderno transcende o combate físico, apresentando-se como um sistema de desenvolvimento humano que une tradição e aplicação prática.
A estrutura técnica que conhecemos hoje começou a tomar forma após 1945, quando o Grão-Mestre Choi Yong-sool retornou à Coreia, fundando as bases do que seria o Hapkido moderno. No entanto, foi seu discípulo Ji Han-jae quem expandiu a arte e a elevou a um status institucional sem precedentes ao introduzir o Hapkido no treinamento da Guarda Presidencial da Coreia do Sul na década de 1960. Sob a influência de Ji, a modalidade tornou-se o padrão ouro para a segurança de dignitários, sendo adotada pelo Serviço de Segurança Presidencial (PSS) devido à sua eficácia extrema em imobilizações e neutralização rápida de ameaças.
Essa vocação militar e policial do Hapkido permanece vigorosa na atualidade. Além da Guarda Presidencial, a arte é componente essencial do treinamento de unidades de elite do Exército da República da Coreia (ROK Army) e das forças de operações especiais. Diferente de modalidades puramente esportivas, o Hapkido é valorizado pelos militares coreanos por sua versatilidade em combate corpo a corpo real, oferecendo soluções para desarmamento e controle de oponentes que são fundamentais em cenários de segurança nacional e policiamento tático moderno.
No Brasil, a introdução da modalidade ocorreu no final da década de 1960, tendo como precursor o Mestre Jung Do Lim, que se estabeleceu na Bahia por volta de 1968. A partir dos anos 1970, a arte ganhou força com a chegada de outros grandes mestres, como Park Sung Jae em São Paulo (1972) e, posteriormente, Yun Sik Kim (1977), responsável pela fundação de importantes entidades e pela realização do primeiro campeonato brasileiro em 1990. Esses pioneiros foram fundamentais para adaptar a técnica coreana à realidade brasileira, conquistando respeito pela eficácia e disciplina.
A organização da modalidade no país atingiu um novo patamar de profissionalismo com a fundação da Liga Nacional de Hapkido em 2004. Criada com o objetivo de unificar e padronizar o ensino da arte em território brasileiro, a Liga tornou-se o principal pilar de suporte para instrutores e alunos, promovendo a integração entre diferentes escolas e estados. Sob essa gestão, o Hapkido passou a contar com uma estrutura sólida para a realização de exames de graduação, cursos de capacitação técnica e eventos competitivos de alto nível.
Atualmente, a Liga Nacional de Hapkido desempenha um papel crucial na preservação dos ensinamentos dos antigos mestres, ao mesmo tempo em que fomenta o crescimento da modalidade como ferramenta de educação e saúde. Através de sua atuação desde 2004, a entidade garante que a essência filosófica de Hwa, Won e Yu seja transmitida com fidelidade às novas gerações. Hoje, o Hapkido no Brasil é reconhecido não apenas como um sistema de combate eficiente e militarmente testado, mas como um caminho ético que forma cidadãos resilientes e equilibrados em todo o país.